Chove. Chove muito e pela rua só ouço o toc-toc dos meus sapatos, sempre os mesmos, nos últimos tempos.
Já são quase sete horas da manhã mas o Sol ainda não dá sinais de se querer mostrar. Na paragem já posso ver um aglomerado de guarda-chuvas.
A paragem que a outras horas do dia é preenchida por conversas em voz (demasiado) alta está estranhamente silenciosa.
O autocarro chega e as pessoas começam a entrar. Muitas já não arranjam lugar sentadas e estamos na segunda paragem. São 7 horas.
O autocarro chega e as pessoas começam a entrar. Muitas já não arranjam lugar sentadas e estamos na segunda paragem. São 7 horas.
Andar de autocarro às 7 da manhã faz-se sempre pensar na vida, no sentido da existência, sei lá. Nessas coisas que às vezes penso que só passam pela minha cabeça quando ando de autocarro às 7 da manhã depois de uma noite mal dormida.
O autocarro das 7 da manhã é especial. Porque na segunda paragem se esgotam os lugares, o que não acontece às 9 ou às 10, horas a que é mais frequente eu apanhar o autocarro. É especial porque me lembra do quanto sou inútil quando estou a dormir e estas pessoas que me rodeiam apanham este mesmo autocarro dia após dia.
É por andar de autocarro às 7 da manhã que as injustiças sociais me revoltam. Porque vejo crianças de 4 anos e adultos de 60 que acordam todos os dias as 6 da manhã e andam a pé até à paragem e andam à chuva e molham os pés e a roupa para trabalhar... e ao fim de 40 anos de trabalho têm direito a uma reforma de 200€... E é ver políticos dizer que as coisas têm de continuar como estão porque não há dinheiro. E é saber que um político com 8 anos de carreira tem direito a uma reforma inteira e choruda. Melhor ainda é ver a renovação da frota da Assembleia da República.
Quem sabe se os nossos políticos andassem de autocarro às 7 da manhã não teriam uma opinião diferente...
"Só merece a liberdade e a vida quem luta diariamente por as conquistar"
Goethe
1 comentários:
Só podias ser tu a escrever isto. Mas concordo plenamente com cada palavra! :)
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